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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Um adeus português



Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver


Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

*

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.


Alexandre O'Neill

Fonte: portodeabrigo.do.sapo.pt/





Posted by 1lindomenino Dated30aug2011



terça-feira, 19 de julho de 2011

Elegia com uma variação romântica





As mulheres loucas arrumam os quartos, fazem
as camas desfeitas,
empilham camisas e calças,
abotoam os cintos do infinito, prendem os laços
da sombra.
Com os seus olhos cegos, enfiam
agulhas no buraco da vida,
cosem as feridas
do amor que não tiveram,
cantam devagar
a canção da idade fria.
Dispo essas mulheres
no meu poema;
espalho as suas roupas pelas cadeiras
do quarto;
abro a cama onde as deito; rasgo
os pontos que acabaram de coser.
O seu sexo -
seco pelos ventos de uma inquietação nocturna
-
humedece-me os dedos. Desfolho os dias de março
enquanto desfloro os seus lábios.
Por vezes,
as mulheres loucas abrem a porta da varanda,
respiram o perfume das trepadeiras brancas
da primavera,
desmaiam com o sol.

Poema de Nuno Júdice

Publicado por: rodrigl em astormentas.com





Posted by 1lindomenino Dated19jul2011


quinta-feira, 19 de maio de 2011

João Villaret - Recado a Lisboa







Recado a Lisboa
Letra: João Villaret
Música: Armando da Câmara Rodrigues

João Henrique Villaret nasceu em Lisboa, em 1913. Foi um apaixonado pelo teatro destacando-se mais tarde como "declamador", criando um estilo inimitável de recitação poética.

(...) "Declamador? Não, não era isto. O intérprete de Camões não é um declamador, no estilo em que são os profissionais e amadores de dizer versos. O que há de surpreendente na arte de João Villaret é que ele não repete a "coisa sabida", ensaiada para o efeito da platéia, já em expectativa e já sabedora do que vai acontecer, já previdente das inflexões, dos efeitos da poesia. Villaret não é um declamador, um artista que "sabe dizer o que outros criaram". Ele se encarna no autor, e aquilo que assistimos é um ato de gestação, como se nos colocasse em presença o Poeta no momento da Poesia, e improvisasse a genialidade com que a Obra nasceu. João Villaret é um ser ecumênico." (...). (Guilherme Figueiredo)

Fotos*: Pedro Antunes


http://imagenslisboa.blogspot.com/

*Exceto a primeira e a foto dos barcos.

*******

Lisboa minha mãezinha
Com o teu xaile traçado
Recebe esta carta minha
Que te leva o meu recado

Que Deus te ajude, Lisboa
A cumprir esta mensagem
Dum português que está longe
E que anda sempre em viagem

Vai dizer adeus à Graça
Que é tão bela, que é tão boa
Vai por mim beijar a Estrela
E abraçar a Madragoa

E mesmo que esteja frio
Que os barcos fiquem no rio
Parados sem navegar
Passa por mim no Rossio
E leva-lhe o meu olhar

Se for noite de São João
Lá pelas ruas da Alfama
Acende o meu coração
No fogo da tua chama

Depois leva-o p´la cidade
Num vaso de manjerico
Para ele matar a saudade
Desta saudade em que fico
...

(vidé Vídeo)



Posted by 1lindomenino Dated19may2011