Questões tão polêmicas quanto o sexo dos anjos, a sorte e o destino estão em pauta. Gurus de auto-ajuda vêem seus livros desaparecerem rapidamente das livrarias ao ressaltar que não existe destino e a sorte não é um dom com o qual se nasce, mas algo construído e ampliado. Suas teorias confirmam a visão moderna de que as oportunidades são criadas por quem sabe lidar com sua intuição. Na contramão dessa visão pragmática, uma corrente de psicólogos e filósofos mostra que acreditar em destino, sem que este exclua a liberdade de escolha, pode ajudar a construir significados, aceitar as excentricidades da vida e dar importância aos próprios desejos.
Para boa parte dos psicólogos atuais, a distância entre a sorte e o azar está no esforço que cada um desprende. Depois de entrevistar 400 pessoas, o professor de psicologia Richard Wiseman, da Universidade de Hertfordshire, no Reino Unido, e autor do sucesso "The Luck Factor" (O Fator Sorte), conclui que sorte ou azar são imprevisíveis e, se nada está escrito, as chances de sucesso em qualquer empreitada é diretamente proporcional ao número de apostas que se faz.
"Os que se dizem azarados são os que preferem não investir nas oportunidades", concorda o psicólogo Aloysio DAbreu, que usa como exemplo a piada do pão-duro que todas as noites pede a Deus para ganhar na loteria "até que um dia, Deus atende aos chamados e responde: se quer ganhar, pelo menos se dê o trabalho de comprar o bilhete". Por outro lado, nem sempre basta o empenho. O que explica, por exemplo, o desejo de alguns de ser artistas, palhaços de circo, viver longe do caos e outros perseguirem exatamente o oposto? O psicólogo junguiano, James Hillman, dos Estados Unidos, insiste que "cada qual tem um dom e ambições particulares". Para ele, a noção de sina é muito importante, pois permite que certas excentricidades sejam tidas como sorte.
A filósofa e professora da USP Olgária Mattos lembra da importância da noção de destino na Grécia Antiga. Nas peças gregas, o Oráculo, figura que revelava o futuro dos heróis, simbolizava uma forma de mostrar a singularidade do personagem. "No caso da tragédia grega, o herói, como o Édipo, é aquele que não pode fugir da própria história, mesmo que trágica", explica Olgária.
Para Aloysio DAbreu acreditar na predestinação é uma tentativa do homem de controlar o inexplicável. Nas peças, tudo era ordenado com começo, meio e fim. O destino determinava a continuidade das histórias. Na vida real, ninguém pode predizer a sorte do outro, pois tudo o que é vivo está em transformação interior e sofre influência do acaso. Olgária Mattos lembra de Aristóteles. "Ele dizia que não se pode falar que alguém é feliz, mas que foi feliz. Só a morte confirma o destino de alguém", diz.
Por Simone Muniz
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