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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ausência



Ontem à noite, melancólico e saudoso, enquanto escrevia uma longa carta de amor à minha mulher viajante, olhei sem querer para a mão esquerda e comecei a achá-la enfadonha e irrelevante.

Ali parada sobre a tábua da mesa, sem função nenhuma, era um apêndice besta, carecido de utilidade, boba mesmo, comparada com a outra direita, esperta e próspera. Antes que este fato tomasse por demais minha atenção e, considerando que sou homem prático e decidido, resolvi então eliminá-la.

Sobre o cepo de rachar cavacos, depositei-a inerte, branca, unhas por fazer e, sacando da bainha o facão, tchooooomp.

Fora um golpe de mestre, digno mesmo da minha proverbial habilidade. Ao vê-la ali prostrada e sozinha, quase senti pena, mas nem um pingo de arrependimento. Afinal, exigia trabalho extra e a maior parte do tempo vivia encolhida e suada dentro do bolso, sempre a imaginar coisas.

Porém, previdente e parcimonioso que sou, a exemplo de meu avô marceneiro, diligente catador e colecionador de objetos inúteis, resolvi mantê-la guardada. Quem sabe um dia, um penduricalho de colo, um enfeite de mesa, peso de papéis, sei lá, farei uma bobagem qualquer. Bem feito! Não tangia serrote, não mexia panela, não tirava sapato, nem coçava, nem nada. Bem feito mesmo!
Hoje estou feliz, mais leve, menos preocupado com coisas inúteis.

Além disso, e mais por isso talvez, acabo de receber telegrama da minha mulher que inesperadamente retorna de sua longa viagem!

Apresso-me, calço-me de sapato novo e dirijo rápido como o vento, rumo à rodoviária.

Olhem só, lá está ela, linda como sempre com seu indefectível lenço de seda , dentes alvos à mostra, sorrindo aquele mesmo e delicioso sorriso, um pouco mais gorda talvez. Lá vem ela! Mala abandonada no chão, beija em minha boca, gruda em meu pescoço. Afastando-se um pouco, mãos sobre meus ombros, olha-me de alto a baixo e de repente empalidece. Uma sombra gigantesca ataca seu rosto e murcha sua boca. Sua ampla testa se enruga, os braços penduram-se no corpo voluptuoso.

A volta para casa é longa e silenciosa. Responde monossilabicamente à minha ansiedade de conhecer suas andanças, olha-me apenas de soslaio. A chegada em casa é pior ainda. Aos cães, há tempos sentindo sua falta, dirige apenas um afago breve e desprovido de entusiasmo, para em seguida trancar-se no quarto.

Que diabos é isso agora? Não posso compreender. É certo que estou um pouco mais velho, a barba longa demais, mas não considero motivos suficientes para tanto e tão prolongado constrangimento. Será que é o que eu estou pensando? Será que ela teria notado, em sua perspicácia, a falta daquele... Não é possível! Não é possível! Será?

Bem, pelo sim e pelo não, não me custará nada. Posso aproveitar seu banho e arrumação das roupas, para recolocar aquele traste de mão em sua posição original. Sim é isso mesmo! Uns pontos aqui, outro remendo ali, depressa! Pronto! Mais um serviço bem realizado. Na verdade uma obra de arte.

Entro sem ruídos. Na obscuridade vespertina do quarto ela vira-se para mim e, buscando ansiosamente com o olhar a mão reimplantada, fixa demoradamente seu olhar na aliança de ouro. Seu rosto resplandece como nunca visto antes. Então, esticando os braços abertos em minha direção e sorrindo novamente, cobre-me generosamente com sua magnífica e desejada nudez.


José Roberto Hofling

José Roberto Hofling
(08/11/1942) mora em Paulinia, no interior do Estado de São Paulo. Além de escrever é artista plástico e fotógrafo. Não tem livro publicado.



Agradecimento ao José Roberto e ao site http://www.releituras.com/

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