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domingo, 20 de dezembro de 2009

Joana


Laura Medioli



Conheci Joana quando, saindo para Deus sabe onde, "deixou" os cinco filhos sob os cuidados de meu irmão Virgílio, recém-casado e ainda com a vida a se estabilizar. Naquela época, morávamos bem próximos, e a "novidade" veio ele nos contar, ele e minha cunhada que, de repente, se viu às voltas com cinco crianças para alimentar, vestir e tratar.


Claro, algo assim deveria ser compartilhado com a família, principalmente com minha mãe, sempre de coração aberto e mente tranquila.


As crianças chegaram praticamente com a roupa do corpo, olhinhos assustados e surpresas com o novo ambiente. Já haviam se mudado inúmeras vezes, mas sem a presença da mãe seria a primeira. Algumas choravam, enquanto outras se divertiam com os confortos de uma televisão, geladeira, cama limpa e o carinho de minha família, que se prontificou a dar-lhes os primeiros cuidados.


Joana veio do sertão. Nordestina de família numerosa, ainda menina, fora trocada pelo pai por alguns sacos de farinha. Sem alternativa, caiu na vida e não se sabe ao certo como aqui fincou raízes. Mãe de sete filhos (dois perdidos no mundo), foi descoberta por meu irmão debaixo de uma ponte que, penalizado, juntamente com alguns amigos, conseguiu para ela um barraco para morar. Depois disso, dela não teve mais notícias até o dia em que chegou a sua casa, dizendo que precisava viajar. Não tinha com quem deixar os filhos.


As crianças, de pais diferentes, carregavam as mais diversas características. O caçula, loirinho do cabelo anelado, parecia um anjo com aquela enorme camiseta Hering a lhe alcançar os pés; acima dele, uma menina, morena dos cabelos curtos, parecendo uma indiazinha; depois outra, dos olhos negros muito vivos; mais um garoto, belo, com amendoados olhos verdes a lhe adornarem a face delicada. Por fim, o mais velho, mulato de traços fortes, já adolescente.


Nunca estranhei aquela situação, até porque minha casa sempre fora aberta a todos, e não seriam cinco crianças surgidas de repente que seriam relegadas. Enfim, uma semana após ter partido, Joana regressou levando a sua prole.


Com uma vida nada fácil, carregava cicatrizes no corpo. Gostava de mostrar as marcas de suas tristes experiências, e o fato de ter sobrevivido a duas facadas e a inúmeras lutas era para ela motivo de orgulho. Agitadíssima, falava alto e caçava encrenca por onde passava - não era considerada muito normal. Mas, justiça seja feita, apesar das dificuldades, nunca abandonou os filhos, protegia-os como galinha com seus pintinhos e, se por alguns dias teve que deixá-los com nossa família, é porque talvez fosse o único lugar em que confiasse.


Depois de levá-los, em menos de uma semana, bateu em nossa porta um dos garotos, na época com 12 anos. Havia fugido.


Joana veio buscá-lo e, no dia seguinte, fugiu de novo. Queria morar em nossa casa. E foi assim, depois de muita conversa que decidimos em comum acordo com sua mãe mantê-lo junto a nós. Passou a frequentar a escola e a usufruir de uma vida normal. Gostava de levá-lo aos jogos no Mineirão e o apresentava como meu irmão mais novo. Com o tempo, os problemas foram surgindo, o garoto foi se rebelando, criando atritos na escola e mesmo em nossa família. Não escutava conselhos nem era adepto da verdade. Já adolescente, Joana o levou de volta.


De vez em quando ia nos visitar. Apesar de não mais morar conosco, manteve os laços, principalmente comigo e com minha mãe, por quem tinha verdadeira adoração. Sumiu por um bom tempo até, um dia, aparecer travestido de moça. Veio me contar sua história. Entrou na vida e era mantido por um velho rico que lhe dava os luxos com os quais sempre sonhara.


Os olhos verdes continuavam doces, mesmo que rebuscados de rímel e sombras coloridas, verdadeira agressão ao rosto quase infantil. Tentamos dar conselhos, bobagem! Nunca escutou ninguém, seguia o seu instinto, dizia estar feliz. Anos depois, fiquei sabendo: morrera de AIDS. Fiquei triste por aquele menino que um dia cheguei a chamar de irmão, triste por sua sina e pelas provações passadas em sua curta existência aqui na Terra.


Também o destino não foi muito feliz com o irmão mais velho, que, envolvendo-se em confusão, durante anos cumpriu pena por assassinato.


A irmã mais nova casou-se, descasou e mantém, com a ajuda da mãe, uma escadinha de filhos.


Desde o dia em que conheci Joana, acompanho-a em suas inúmeras moradias. Constantemente mudava de endereço por desentender-se com a vizinhança, chegando inclusive a ter um dos barracos incendiados. Quando nos encontrávamos, agitada e muito falante, me abraçava com vontade - apesar de magrinha, tinha uma força descomunal.


Certa vez, próximo à vila em que morava, encontrei-a aos berros discutindo com os guardas de uma radiopatrulha.


Parei para ver o que acontecia, e ela, desvencilhando-se deles, correu para me abraçar: - Pode me prender, me prende que ela me solta! Gritava. E eu, conversando com eles, mostrei que ali só faltavam alguns parafusos, nada mais. Aquela mulher, apesar de meio doidinha, era boa, sofrida, que dava a vida para proteger seus filhos, vê-los bem.


Faz mais ou menos dois anos quando a vi pela última vez. Apareceu na portaria do jornal, com suas vestes simples, fisionomia cansada, falando alto, gesticulando muito, com aquele seu jeito meio diferente de ser. O porteiro barrou, afinal, "uma maluca daquela não poderia deixar entrar". Acabou me chamando pelo interfone. Pedi que a deixassem passar e fui recebê-la na porta.


Como sempre, ao me ver, correu para me abraçar. Gritava, enquanto me arremessava para o alto. Sorrindo, levei-a para dentro sob o olhar atônito da vigilância. Veio pedir ajuda para uma das filhas, sozinha, às voltas com uma escadinha de filhos. Mantive contato com a família por um bom tempo, até que, mais uma vez, soube que haviam se mudado. Não sei mais onde encontrá-la e espero, sinceramente, que meu interfone toque avisando: "Tem uma dona aqui querendo entrar, a senhora atende?".


Escrevi este texto no final de 2004. Depois disso, ainda estive com ela muitas vezes. Hoje, com o peso da idade, já não me joga mais para cima, não discute com guardas nem fala tanto como antes. Com tamanhas adversidades, a alegria que lhe era tão peculiar, enfim, foi se apagando. Joana é dessas mulheres que deixam marcas, pelo seu instinto de sobrevivência e pelo incondicional e imensurável amor materno. Uma mulher que aprendi a respeitar e a admirar. Deixará saudades.



Escrito por Cláudio Santos de Souza


Agradecimento ao site: http://www.soropositivo.org/

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